E todos os
dias ele se faz as mesmas perguntas. Quer saber se algum outro cara um dia
reparou – ou vai reparar – nela da mesma forma que ele repara. Ele tem certeza
que ninguém nunca percebeu que ela morde o lábio inferior quando está nervosa e
que por mais que provoque um cara, ela fica sem jeito quando recebe um elogio. Gosta do café com adoçante, coloca poucas
gotas, mas sempre bate com a colher três vezes na xícara. Ela tem um sorriso
lindo e se você reparar bem, vai perceber que ela sorri mais pra um lado que
para o outro e isso dá um charme todo especial.
Todos os
dias, ele se pergunta se algum dia ela revelou – ou vai revelar – para outro
cara que chora escondido sempre que briga com alguém e que uma vez, quando
era criança, ficou meses com peso na consciência porque roubou um bombom das
Lojas Americanas. Será que contou – ou contará
– sobre como ela ficou péssima ao descobrir que durante anos confiou em uma
amiga que não hesitou em passar por cima dela quando foi preciso? E quanto sua
primeira decepção amorosa? Na sexta série ela quebrou uma régua batendo no
garoto que gostava porque ele comprou um lanche para outra menina... Algum
outro cara sabe – ou saberá – disso?
Ele não
pode evitar. Todas as noites, se pergunta se ela riu – ou vai rir – com outro, quando
o assunto for o ex namorado que virou gay ou a coca-cola que ela jogou em um cara só por que ele chamou a melhor amiga dela de gorda. Ela vai colocar
a mão na testa e dar um sorriso sem-graça ao confessar que sua falta de
paciência já rendeu boas brigas, mas também ótimas risadas? Vai colocar o
cabelo pra trás da orelha e reclamar que nunca consegue dar um jeito nele?
Talvez ela apenas ria, talvez ao colocar os cabelos para trás ela se lembre
dele... De como ele sempre dizia que ela era linda, até com o cabelo bagunçado
e que não precisava dar um jeito nele, porque aquele jeito já era perfeito pra
ela. Quem sabe ela prefere esconder a história do bombom, só porque quando ela contou
para ele, ele respondeu que era melhor - ou pior, ela decidia - do que ela, pois até a adolescência ele
pegava bombons das Lojas Americanas.
Talvez,
quando ela estiver com outro cara, pense nele... E lembre que ela nunca precisou jogor
coca no rosto dele, mas que na primeira vez que fizeram amor, ela deixou a
garrafa de vinho – tinto, pois era o preferido dela – cair e eles não puderam
fazer um brinde pelos dois. Ela pode se lembrar das vezes em que ficaram deitados no sofá e ela sempre pedia para ele cantar pra ela, pois sua voz a acalmava e lhe dava bons sonhos. Talvez ela tenha as mesmas perguntas... E talvez, ela
também não tenha a resposta para a pergunta que mais machuca seu coração: por
que afinal eles não estão juntos?
(Ivana Guimarães)