domingo, 24 de junho de 2012

Dúvidas da saudade


E todos os dias ele se faz as mesmas perguntas. Quer saber se algum outro cara um dia reparou – ou vai reparar – nela da mesma forma que ele repara. Ele tem certeza que ninguém nunca percebeu que ela morde o lábio inferior quando está nervosa e que por mais que provoque um cara, ela fica sem jeito quando recebe um elogio.  Gosta do café com adoçante, coloca poucas gotas, mas sempre bate com a colher três vezes na xícara. Ela tem um sorriso lindo e se você reparar bem, vai perceber que ela sorri mais pra um lado que para o outro e isso dá um charme todo especial.
Todos os dias, ele se pergunta se algum dia ela revelou – ou vai revelar – para outro cara que chora escondido sempre que briga com alguém e que uma vez, quando era criança, ficou meses com peso na consciência porque roubou um bombom das Lojas Americanas.  Será que contou – ou contará – sobre como ela ficou péssima ao descobrir que durante anos confiou em uma amiga que não hesitou em passar por cima dela quando foi preciso? E quanto sua primeira decepção amorosa? Na sexta série ela quebrou uma régua batendo no garoto que gostava porque ele comprou um lanche para outra menina... Algum outro cara sabe – ou saberá – disso?
Ele não pode evitar. Todas as noites, se pergunta se ela riu – ou vai rir – com outro, quando o assunto for o ex namorado que virou gay ou a coca-cola que ela jogou em um cara só por que ele chamou a melhor amiga dela de gorda. Ela vai colocar a mão na testa e dar um sorriso sem-graça ao confessar que sua falta de paciência já rendeu boas brigas, mas também ótimas risadas? Vai colocar o cabelo pra trás da orelha e reclamar que nunca consegue dar um jeito nele? Talvez ela apenas ria, talvez ao colocar os cabelos para trás ela se lembre dele... De como ele sempre dizia que ela era linda, até com o cabelo bagunçado e que não precisava dar um jeito nele, porque aquele jeito já era perfeito pra ela. Quem sabe ela prefere esconder a história do bombom, só porque quando ela contou para ele, ele respondeu que era melhor - ou pior, ela decidia - do que ela, pois até a adolescência ele pegava bombons das Lojas Americanas.
Talvez, quando ela estiver com outro cara, pense nele... E lembre que ela nunca precisou jogor coca no rosto dele, mas que na primeira vez que fizeram amor, ela deixou a garrafa de vinho – tinto, pois era o preferido dela – cair e eles não puderam fazer um brinde pelos dois. Ela pode se lembrar das vezes em que ficaram deitados no sofá e ela sempre pedia para ele cantar pra ela, pois sua voz a acalmava e lhe dava bons sonhos. Talvez ela tenha as mesmas perguntas... E talvez, ela também não tenha a resposta para a pergunta que mais machuca seu coração: por que afinal eles não estão juntos? 

(Ivana Guimarães)