quinta-feira, 19 de julho de 2012

Ele/ela merecem.


“- Você ta aqui?
- To sim.
- Em outros tempos você sempre dizia quando vinha.
- Em outros tempos você fazia questão de saber.
- Vamos sair, eu sinto saudades.”



                E eles saíram. Saíram porque ele não guardou amor e nem ela rancor. Saíram porque os sons de suas risadas eram muito mais bonitos quando estavam juntos.  Saíram porque precisavam disso. Marcaram de se encontrar na mesma praça de sempre, de baixo daquela mesma árvore que tinha suas iniciais gravadas no tronco. De início conversa boba. Palavras escolhidas e pensadas. Era estranho, a consideração maior que o orgulho. Não queriam mostrar que estavam felizes, era como se isso diminuísse a importância que tiveram. Até que a pergunta “e como vai o coração?” saiu dos lábios dele. E foi inevitável impedir o brilho que saiu dos olhos dela.
                Assim, sem mais nem menos, todo o jogo de palavras foi pro espaço. Porque os olhos dela sempre falavam mais. Os olhos dela sempre brilhavam quando ela estava feliz. E quando ela abaixou o rosto para esconder as bochechas corando, ele teve a certeza de que ela tinha um novo amor. Um cara, que diferente dele lhe daria valor, sorriu diante disso. Ela também sorriu, sabia que ele estava sendo sincero. As palavras dessa vez saíram por vontade própria, não precisavam mais escolhê-las, não precisavam mais esconder o que acontecia porque ambos estavam felizes.
                E se despediram, prometeram não perder contato. Não era mais necessário fugir da presença um do outro. A vida é assim às vezes. Não tem porque ignorar alguém que tantas vezes fez seu coração bater mais forte. Ao deixá-la em casa e ao vê-la subir as escadas e olhar para trás soprando um beijo – como sempre fazia – ele sorriu e desejou que aquele cara pudesse fazê-la feliz. Que ele entendesse que sempre que ela precisa dizer algo importante, dá voltas e voltas para falar, como se tivesse tomando coragem ou ainda como se quisesse adiar o momento de falar. Mas fala, porque ela é sincera como ninguém. Que ele entenda que ela chora à toa e que quando está naqueles dias ela chora mais ainda, principalmente depois (mostrando que está arrependida) de gritar dizendo que o mundo a odeia e que tudo dá errado.  Que esse cara pegue o pequenino rosto entre as mãos e diga olhando nos olhos dela que a adora, porque ela tem a mania de esquecer que ela é aquele tipo de garota que todo cara quer por perto. Ele liga o carro desejando que ela de fato esteja e seja feliz, porque ela merece.
                Ela ouve o carro partir e deseja de coração que ele possa encontrar a garota que ele tanto sonha. Ela espera que seja uma garota que o entenda. Entenda que ele prefere se calar quando algo vai mal, e que no momento certo ele vai se abrir. Entenda que, ao contrário do que os outros pensam, ele adora falar sobre o pai que já partiu.  Uma garota que saiba que ele adora conversas olho no olho, uma garota que decifre seus sinais. Como aquele de coçar o queixo – um sinal de nervosismo – ou aquele de estalar os dedos – um sinal de raiva – ou ainda, aquele de franzir o cenho – um sinal de preocupação. Ela vai para o quarto desejando que ele de fato esteja e seja feliz, porque ele merece.

(Ivana Guimarães)

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