“- Você ta
aqui?
- To sim.
- Em outros
tempos você sempre dizia quando vinha.
- Em outros
tempos você fazia questão de saber.
- Vamos
sair, eu sinto saudades.”
E eles saíram. Saíram porque ele não guardou amor e
nem ela rancor. Saíram porque os sons de suas risadas eram muito mais bonitos
quando estavam juntos. Saíram porque
precisavam disso. Marcaram de se encontrar na mesma praça de sempre, de baixo
daquela mesma árvore que tinha suas iniciais gravadas no tronco. De início conversa
boba. Palavras escolhidas e pensadas. Era estranho, a consideração maior que o
orgulho. Não queriam mostrar que estavam felizes, era como se isso diminuísse a
importância que tiveram. Até que a pergunta “e como vai o coração?” saiu dos
lábios dele. E foi inevitável impedir o brilho que saiu dos olhos dela.
Assim, sem mais nem menos, todo o jogo de palavras
foi pro espaço. Porque os olhos dela sempre falavam mais. Os olhos dela sempre
brilhavam quando ela estava feliz. E quando ela abaixou o rosto para esconder
as bochechas corando, ele teve a certeza de que ela tinha um novo amor. Um
cara, que diferente dele lhe daria valor, sorriu diante disso. Ela também
sorriu, sabia que ele estava sendo sincero. As palavras dessa vez saíram por
vontade própria, não precisavam mais escolhê-las, não precisavam mais esconder
o que acontecia porque ambos estavam felizes.
E se despediram, prometeram não perder contato. Não
era mais necessário fugir da presença um do outro. A vida é assim às vezes. Não
tem porque ignorar alguém que tantas vezes fez seu coração bater mais forte. Ao
deixá-la em casa e ao vê-la subir as escadas e olhar para trás soprando um
beijo – como sempre fazia – ele sorriu e desejou que aquele cara pudesse
fazê-la feliz. Que ele entendesse que sempre que ela precisa dizer algo
importante, dá voltas e voltas para falar, como se tivesse tomando coragem ou
ainda como se quisesse adiar o momento de falar. Mas fala, porque ela é sincera
como ninguém. Que ele entenda que ela chora à toa e que quando está naqueles
dias ela chora mais ainda, principalmente depois (mostrando que está
arrependida) de gritar dizendo que o mundo a odeia e que tudo dá errado. Que esse cara pegue o pequenino rosto entre
as mãos e diga olhando nos olhos dela que a adora, porque ela tem a mania de
esquecer que ela é aquele tipo de garota que todo cara quer por perto. Ele liga
o carro desejando que ela de fato esteja e seja feliz, porque ela merece.
Ela ouve o carro partir e deseja de coração que ele
possa encontrar a garota que ele tanto sonha. Ela espera que seja uma garota
que o entenda. Entenda que ele prefere se calar quando algo vai mal, e que no
momento certo ele vai se abrir. Entenda que, ao contrário do que os outros
pensam, ele adora falar sobre o pai que já partiu. Uma garota que saiba que ele adora conversas
olho no olho, uma garota que decifre seus sinais. Como aquele de coçar o queixo
– um sinal de nervosismo – ou aquele de estalar os dedos – um sinal de raiva –
ou ainda, aquele de franzir o cenho – um sinal de preocupação. Ela vai para o
quarto desejando que ele de fato esteja e seja feliz, porque ele merece.
(Ivana Guimarães)

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