O vento grita lá fora e eu
acho que você não vai vir, mas coloco uma roupa que eu acho que você vai
gostar. - Só por via das dúvidas - O céu escuro atrás do vidro da janela sugere
que os ponteiros do relógio já estão quase na posição combinada e eu acho que
você não vai vir, mas deixo os óculos de lado. – Só pra garantir – Prefiro não
passar perfume e nem calçar, só para provar que não estou esperando você, só
pra não parecer boba se você não vier.
Até que você diz meu nome e entre a vontade de dar
uma cambalhota e gritar de alegria, peço pra você esperar só um instante.
Corro, calço alguma coisa que combine com a roupa e passo um perfume. Queria
pensar em ir devagar pra ser sua vez de me esperar, mas eu simplesmente não penso
quando o assunto é você. Até que, quase trocando os pés de tanta euforia, eu
chego até você e aí posso te olhar. Seus olhos, seu queixo, seu sorriso, sua
boca, sua barba por fazer, seu queixo de novo. Céus, como eu adoro seu queixo! E
o vento sopra forte e me leva pro seu abraço, como se lá fosse meu abrigo, como
se minha casa fosse seu corpo. Você sabe disso e ri do meu medo de vento e diz
pra eu segurar bem forte. Até que você me beija e sua mão em meu corpo me faz esquecer que
ainda estamos na porta de casa. E você sorri e eu também porque sabemos exatamente
o que o outro está pensando. Você diz que devemos ir e eu concordo, damos as
mãos e eu desejo poder ir pra qualquer lugar com você. E você brinca que vai
mudar de calçada porque não quer que nenhum outro me olhe e eu penso que me
satisfaço só por você me olhar.
O vento continua lá e a noite nos observa andar pelas
ruas, dando risada de tudo o que é bobo – como se não fôssemos dois grandes
bobos. E as ruas são testemunhas das nossas palavras, das histórias que
revelamos até chegar onde queremos. E chegamos! Que coisa de velhinhos, isso de
andar de mãos dadas numa pracinha! Tenho vontade de rir alto e te dizer o
quanto adoro isso tudo. O quanto adoro sentar do seu lado e encaixar meu corpo
no seu, como se fôssemos um quebra-cabeça de duas peças. O quanto adoro olhar
você e ter a oportunidade de gravar cada detalhe do seu rosto. E o quanto eu
adoro a forma que você me olha e me faz pensar que você também está feliz.
Ficamos horas com a noite e o vento nos admirando e
penso que eles devem ter se apaixonado por nós dois. Não me ache prepotente
querido, mas não posso deixar de lado a raridade disso que nós temos.
Cumplicidade, parceria, vontade de entender o outro. De conhecer os detalhes –
aqueles bem escondidos, bem ocultos. Nossa vontade de se entregar, mesmo que um
dia possa dar errado. Sabe, pensei em não te esperar, mas eu esperei. Esperei
porque eu sabia que você vinha pra mim. E você veio, veio porque sabe que eu
pertenço a você.
(Ivana Guimarães)
(Ivana Guimarães)

