segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Esperas, noite, vento, nós dois.


                 O vento grita lá fora e eu acho que você não vai vir, mas coloco uma roupa que eu acho que você vai gostar. - Só por via das dúvidas - O céu escuro atrás do vidro da janela sugere que os ponteiros do relógio já estão quase na posição combinada e eu acho que você não vai vir, mas deixo os óculos de lado. – Só pra garantir – Prefiro não passar perfume e nem calçar, só para provar que não estou esperando você, só pra não parecer boba se você não vier.
                Até que você diz meu nome e entre a vontade de dar uma cambalhota e gritar de alegria, peço pra você esperar só um instante. Corro, calço alguma coisa que combine com a roupa e passo um perfume. Queria pensar em ir devagar pra ser sua vez de me esperar, mas eu simplesmente não penso quando o assunto é você. Até que, quase trocando os pés de tanta euforia, eu chego até você e aí posso te olhar. Seus olhos, seu queixo, seu sorriso, sua boca, sua barba por fazer, seu queixo de novo. Céus, como eu adoro seu queixo! E o vento sopra forte e me leva pro seu abraço, como se lá fosse meu abrigo, como se minha casa fosse seu corpo. Você sabe disso e ri do meu medo de vento e diz pra eu segurar bem forte. Até que você me beija e sua mão em meu corpo me faz esquecer que ainda estamos na porta de casa. E você sorri e eu também porque sabemos exatamente o que o outro está pensando. Você diz que devemos ir e eu concordo, damos as mãos e eu desejo poder ir pra qualquer lugar com você. E você brinca que vai mudar de calçada porque não quer que nenhum outro me olhe e eu penso que me satisfaço só por você me olhar.
                O vento continua lá e a noite nos observa andar pelas ruas, dando risada de tudo o que é bobo – como se não fôssemos dois grandes bobos. E as ruas são testemunhas das nossas palavras, das histórias que revelamos até chegar onde queremos. E chegamos! Que coisa de velhinhos, isso de andar de mãos dadas numa pracinha! Tenho vontade de rir alto e te dizer o quanto adoro isso tudo. O quanto adoro sentar do seu lado e encaixar meu corpo no seu, como se fôssemos um quebra-cabeça de duas peças. O quanto adoro olhar você e ter a oportunidade de gravar cada detalhe do seu rosto. E o quanto eu adoro a forma que você me olha e me faz pensar que você também está feliz.
                Ficamos horas com a noite e o vento nos admirando e penso que eles devem ter se apaixonado por nós dois. Não me ache prepotente querido, mas não posso deixar de lado a raridade disso que nós temos. Cumplicidade, parceria, vontade de entender o outro. De conhecer os detalhes – aqueles bem escondidos, bem ocultos. Nossa vontade de se entregar, mesmo que um dia possa dar errado. Sabe, pensei em não te esperar, mas eu esperei. Esperei porque eu sabia que você vinha pra mim. E você veio, veio porque sabe que eu pertenço a você.

(Ivana Guimarães)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Brinquedo guardado


             
            Fico pensando no quanto você me deixa intensa. Tudo é intenso quando se trata de você. O coração disparado, as borboletas no estômago, a dor da ausência, a alegria do reencontro, a esperança do sonhar acordada e principalmente o medo de perder.
                Já perdi outros caras antes e sobrevivi. Na verdade, a sensação de superar a perda é ótima. É como quando você é pequeno e deixa um brinquedo quebrar, até que no próximo aniversário você ganha outro, um brinquedo mais legal, que trás mais diversão. E você esquece aquele outro, deixa o que restou naquela caixa com todos os brinquedos sem importância. Mas sempre tem um brinquedo que não é só um brinquedo, é aquele que se quebrar nunca vai ser reposto. Como aquele ursinho, que a mulher - já com trinta anos – encontra quando está arrumando coisas antigas e fica horas se entregando àquelas lembranças. Intenso, como você.
                Eu sei, você deve estar fazendo uma careta daquelas porque provavelmente eu feri sua masculinidade te comparando a um ursinho de pelúcia (você provavelmente iria preferir ser comparado a um vibrador, mas acredite, um ursinho de pelúcia é mais intenso que um vibrador), só fiz essa metáfora idiota pra mostrar pra você o quanto vai ser doloroso te perder. Pra mostrar que, se isso acontecer, vou manter você em uma caixa dentro do meu coração e abri-la de vez em quando.  E vou me lembrar de como você é um cara intenso. Lembrar das nossas conversas intensas que varavam nossas madrugadas, daqueles olhares que a gente trocava, tão intensos que eu quase podia ouvir nossos olhos conversando.  E os beijos... Aqueles intensos que me deixavam com a perna bamba, uma estratégia sua pra poder me segurar com mais força.
                Eu não quero ter que te perder, não quero ter que guardar restos seus dentro de uma caixa e abrir só nos momentos que precisarei dessas lembranças. Não quero que você seja algo esporádico na minha vida. Eu quero sua presença, quero construir lembranças sim! Mas quero lembranças expostas. Quero lembranças vivas que serão renovadas com a nossa rotina. Intensas como eu e você. Intensas como nós.

(Ivana Guimarães)